quarta-feira, 14 de março de 2012

[ Da ] Gaivota, do Gato e dos voos desta vida.




Ilustrações de Rita Menezes Soares

"(...)
- Estou a voar! Zorbas! Sei voar! - grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos - disse ele suspirando.
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas.
- Ah, sim? E o que que ela compreendeu? - perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas.
- Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo - despediu-se o humano.
Zorbas permaneceu ali a comtemplá-la, até que não soube se foram as gotas de chuva ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos amarelos de gato grande, preto e gordo, de gato bom, de gato nobre, de gato do porto."

Luís Sepúlveda
"História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar...



Dias existem, nos quais, a vontade de nos aninharmos num canto sombrio com as asas coladas ao corpo e de olhos semi-cerrados se suplanta à vontade de voar e nos faz permanecer assim...acostados numa vida que sabemos não ser a nossa.
Dias existem, nos quais, nos sentimos num equilibrio algo desiquilibrado, pousados no varandim de um qualquer campanário do mundo, em suspenso perdidos naquele milésimo de segundo, divididos entre o iniciar de mais uma viagem ou de permanecer na contemplação. 
Dias existem, nos quais, o voo assume um carácter atrevido, determinante que só um voo picado e rasante permite.
Dias existem, nos quais, o voo nos eleva alto, muito alto, ao mais alto de nós. Lá em cima só nós e o sol.  O sol que nos aquece as asas. O sol que faz cintilar o tom prata que nelas existe.  E, lá em cima, no mais alto de nós, planar  torna-se  um momento muito próximo da perfeição, um momento que queremos que permaneça para sempre.



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