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| Ilustrações de Rita Menezes Soares |
"(...)
- Estou a voar! Zorbas! Sei voar! - grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos - disse ele suspirando.
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas.
- Ah, sim? E o que que ela compreendeu? - perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas.
- Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo - despediu-se o humano.
Zorbas permaneceu ali a comtemplá-la, até que não soube se foram as gotas de chuva ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos amarelos de gato grande, preto e gordo, de gato bom, de gato nobre, de gato do porto."
Luís Sepúlveda
"História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar..."
Dias existem, nos quais, nos sentimos num equilibrio algo desiquilibrado, pousados no varandim de um qualquer campanário do mundo, em suspenso perdidos naquele milésimo de segundo, divididos entre o iniciar de mais uma viagem ou de permanecer na contemplação.
Dias existem, nos quais, o voo assume um carácter atrevido, determinante que só um voo picado e rasante permite.
Dias existem, nos quais, o voo nos eleva alto, muito alto, ao mais alto de nós. Lá em cima só nós e o sol. O sol que nos aquece as asas. O sol que faz cintilar o tom prata que nelas existe. E, lá em cima, no mais alto de nós, planar torna-se um momento muito próximo da perfeição, um momento que queremos que permaneça para sempre.


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