Os meus dois últimos natais foram frios...sem a magia que a minha alma de menina sempre lhes deu...
Um foi o meu último ano de casada (lembro-me de ter olhado para os meus filhos nessa noite e ter sentido os olhos rasos de água talvez porque secretamente a minha decisão estava tomada e isso significava o fim do tradicional natal que até então tinha sido a realidade deles...e a minha.
O seguinte foi o primeiro de divorciada...e foi duro...muito duro. A mim só me apetecia estar longe, já não tinha nódoas negras à superfície...mas por dentro estava ainda tão massacrada... o enorme sentimento de humilhação já tinha passado mas ainda era tão difícil tirar os olhos do chão...mas em comum tínhamos frutos da vida que partilhámos.Por eles decidimos que os presentes seriam comprados a meias...por eles decidi aceitar jantar na casa daquela que tinha sido também a minha família (e que continua a ser, pois deles tive e tenho sempre o apoio e o carinho com que se presenteia as pessoas de quem gostamos de verdade)...foi um jantar e um pedacinho de noite muito importante a todos os níveis, mas a sensação de alivio que senti quando entrei com os meus filhos na casa dos meus pais, nessa noite, é indescritível.
Dos 34 aos 35 anos deixei nascer em mim a mulher que hoje sou...e este natal foi quente...bem mais quente...
Comprados os presentes a meias....O célebre jantar manteve-se e correu lindamente...as crianças deliram porque isto se ter duas sessões de abertura de presentes não é para todos.
Mas...23 horas e já estávamos todos na casinha dos meus pais...lá...onde no meio do jardim existe um pinheiro que a avó enche de pequenas luzes brancas [ é debaixo dela que o Pai Natal coloca cuidadosamente três presentes...] e tendo como guia aquelas luzes que cintilam ao frio da meia-noite é vê-los correr por aquele jardim e agacharem-se ao pé da árvore para pegarem naqueles embrulhos que têm coisas sempre simples mas, que os deixam a sorrir como se o amanha não existisse...já madrugada e deitada de frente para a lareira da minha infância lembrei-me que se a minha Avó Jesus estivesse viva estaria ali ao meu lado sentada na sua poltrona de rainha a depenicar dos meus doces e do meu champanhe e senti saudades...muitas...e com a minha irmã e a mãe...rimos e chorámos ao lembrar a mulher mais sui generis que já conhecemos...tudo sob o olhar incrédulo do pai que por fim disse:
- Vou dormir...vocês as três já beberam de mais e não tarda nada sobra para mim...!!
E lá foi dormir embalado pela sonora gargalhada do mulherio adulto da casa...
[ foi de facto uma noite de Natal...animada!!!]
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